A morte vem de cima – por dentro da campanha aérea americana contra os submarinos de Hitler

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O comandante da Força de submarinos da Alemanha era o nazista Karl Dönitz, que presidiria uma das estratégias mais ambiciosas do Terceiro Reich da Segunda Guerra Mundial: derrotar os Aliados cortando a ligação marítima transatlântica da Grã-Bretanha com as Américas.

Para alcançar a vitória, Dönitz ordenou que seus submarinos afundassem um máximo possível de navios inimigos diariamente, em um esforço para neutralizar o fôlego da Grã-Bretanha com o mundo exterior. Ao destruir a frota mercante do inimigo numa razão mais rápida da que a reposição das perdas pelos estaleiros aliados, Berlim acreditava que poderia forçar o Reino Unido à se render e pedir a paz.

No primeiro ano da guerra, os submarinos de Dönitz tiveram suas ações limitadas principalmente devido ao tamanho relativamente pequeno da frota, além do fato da Alemanha não ter bases no Atlântico. Em 1939, os únicos portos dos submarinos do Terceiro Reich estavam no mar Báltico e no Norte. Os submarinos de Dönitz precisariam passar pelas Ilhas Britânicas para alcançar o oceano aberto. Contudo, tudo isso mudou em meados de 1940 com a queda da França e o estabelecimento de bases submarinas ao longo do Golfo da Biscaia.

Na França, Karl Dönitz observa as partidas de mais uma frota de submarinos.

Os novos portos permitiram que as operações submarinas se expandissem além das águas europeias, até as costas do leste do Canadá e Estados Unidos, Golfo do México, Caribe e até América do Sul. O Mediterrâneo também estaria agora ao seu alcance. Para combater a ameaça, a Marinha dos EUA travou uma campanha incansável contra os U-boots da Alemanha – começando com patrulhas para neutralizar as atividades e depois através de operações ofensivas. E, à medida que a guerra continuava, as táticas, os equipamentos de detecção e as armas americanas evoluíram para levar a luta diretamente à Dönitz. O poder aéreo teria um papel crítico nessa campanha.

No verão de 1943, os aviões de patrulha dos EUA chegaram ao norte da Islândia e ao sul do Brasil, cobrindo todos os pontos intermediários. A marinha dos Estados Unidos também estabeleceu bases no norte da África francesa para cobrir o Mediterrâneo e até mesmo voou da Inglaterra sobre o Canal e o Golfo da Biscaia. Enquanto isso, os grupos de caças embarcados nos porta-aviões aperavam em áreas muito além do alcance dos aviões de patrulha convencionais terrestres.

Com isso, a aviação naval dos EUA desempenhou um papel decisivo na guerra contra os submarinos, alegando que, das 783 unidades destruídas durante a guerra, 80 foram devidas aos ataques aéreos. Além dos meios alemães, submarinos italianos e franceses Vichy e pelo menos um submersível japonês também foram vítimas das aeronaves navais dos EUA que operam no Atlântico.

O U-boat U-118 é identificado e atacado pela aviação americana.

O sucesso americano da campanha aérea contra os submarinos de Hitler demorou muito tempo para chegar. A Marinha dos EUA iniciou as operações contra os portos nazistas com poucos navios e poucas aeronaves especializadas para esta missão, acentuada pela ampliação das operações no Pacífico sobrecarregou ainda mais a capacidade da América.

Da mesma forma, a aviação naval pode oferecer pouco no início da guerra, devido à escassez de tripulações aéreas bem treinadas e ao número inadequado de aeronaves de patrulha.

Tais problemas não se estenderam por um longo tempo, já que os fabricantes de aeronaves nos Estados Unidos estavam engajados com as necessidades de guerra e, assim, intensificaram a produção de aviões. No final do primeiro ano da guerra dos Estados Unidos, a aviação naval operava uma impressionante quantidade de aeronaves, com seus esquadrões realizando a guerra anti-submarina (ASW) a partir de bases espalhadas pelo Atlântico. Em 1943, os porta-aviões de escolta ingressaram nas operações de busca e neutralização dos U-boats nazistas, varrendo grandes áreas do norte e do meio do Atlântico.

Porta-Aviões de escolta como o USS Nassau participaram ativamente das ações anti-submarinas no Atlântico.

A tecnologia e as táticas da ASW também evoluíram desde as campanhas americanas contra os submarinos na Primeira Guerra Mundial. Em 1918, submarinos inimigos foram avistados por tripulações que voavam aeronaves de patrulha de curto alcance, usando principalmente binóculos. Os ataques foram realizados com bombas de queda livre. As vitórias, que eram poucas, foram mais por pura sorte do que habilidade.

No início de 1942, os equipamentos de detecção disponíveis para os Aliados haviam se expandido aos trancos e barrancos. A introdução de localizadores de alta frequência (HF/DF), baseados em terra ou em navios, permitiu a coordenação do solo e do ar. Baseados nas direções identificadas por rádio-frequência, as aeronaves podiam ser direcionadas para alvos inimigos com eficácia eficiência. O radar montado em aviões de patrulha naval também se tornou fundamental na localização de submarinos na superfície muito além do alcance visual.

No verão de 1943, as tripulações navais também estavam implantando sonobóias acústicas para rastrear U-boots, enquanto os equipamentos de detecção de anomalia magnética (MAD) podiam identificar, do ar, um submarino submerso.

Os armamentos empregados pelas aeronaves de patrulha também estavam se tornando mais mortais. No início da guerra, metralhadoras calibre .30 e .50 foram usadas para suprimir as defesas antiaéreas dos submarinos; no final da guerra, os torpedos eram a ferramenta de sua escolha.

Equipes de solo instalam foguetes nas asas do Grumman Avenger.

Mas é claro que as cargas de profundidade (AN/Mk-17, AN/Mk44 e AN/Mk-47) eram as armas mais importantes no arsenal antissubmarino dos aliados. Mais tarde, eles se juntariam à Mina Aérea Mk-24, conhecida como Zombie, Proctor ou Fido. Durante o outono de 1941, foi desenvolvido para uso nas aeronaves um torpedo capaz de se guiar pelas vibrações da fuselagem dos submarinos, aumentando sua precisão, entrando em serviço em março de 1943.

Enquanto os navios americanos estavam engajando os submarinos nazistas mesmo antes da entrada oficial dos Estados Unidos na guerra, a primeira morte por uma aeronave naval americana ocorreu em 1º de março de 1942. Foi quando um avião do Esquadrão 82 de Patrulha da Marinha (VP-82) atacou e destruiu o U-656 de Korvettenkapitän Ernst Kröning, na Terra Nova. O piloto William Tepuni avistou a embarcação e soltou um par de cargas de profundidade enquanto o submarino estava mergulhando. Uma grande mancha de óleo apareceu momentos após a detonação. Quarenta e cinco marinheiros foram perdidos. O U-503 encontrou um destino semelhante duas semanas depois nas mãos de outra aeronave do VP-82.


Os torpedos acústicos Mk-24 também dificultaram a vida dos submarinos inimigos. Em 25 de maio de 1943, o U-467 (Oberleutnant zur See Karl-Heniz Nagal comandando) tornou-se o primeiro submarino afundado vítima do Mk-24 disparado por um PBY Catalina do VP-84.

Aeronaves PBY Catalinas.

O primeiro rastreamento bem-sucedido de um U-boat através de HF/DF e radar aéreo de uma aeronave americana ocorreu quando o PBM-3C Mariner P-1 do VP-74 afundou o Tipo IXC U-158 (comandante da Kapitänleutnant Erwin Rostin) a oeste das Bermudas em 30 de junho de 1943.

Um esforço conjunto de um PBY Catalina equipado com MAD e os navios de guerra britânicos destruíram o U-761 no Mar Mediterrâneo em 12 de fevereiro de 1944.

Em 22 de maio de 1943, as aeronaves que operavam no meio do Atlântico a partir do USS Bogue se tornaram os primeiros aviões de escolta a afundar um U-boat. O alvo, U-569, foi o primeiro de nove submarinos destruídos por pilotos do Bogue nos próximos 15 meses.

Os Avengers TBF do VC-1 a bordo do USS Card empregaram com sucesso torpedos Mk-24 afundando o U-117 em 3 de agosto de 1943. Os Avengers TBF do VC-13 do USS Guadalcanal realizaram o primeiro FFAR (Forward Firing Aerial Rockets) contra o U-544 em 16 de janeiro de 1944; o submarino afundou graças a uma combinação de cargas de profundidade e foguetes.

Aeronaves Avengers TBF.

As inovações tecnológicas, combinadas com um número crescente de navios e aeronaves aliadas, acabaram com o domínio dos U-boat, quando o caçador se tornou a caça. O Alto Comando Alemão manteve as perdas crescentes como um segredo bem guardado, ocultando as informações de seus próprios submarinistas que retornavam da patrulha. Será que esses jovens ingressariam livremente no serviço de submarinos entre 1944 e 1945 se soubessem das perdas catastróficas sofridas?

Em 1944, servir em um submarino era efetivamente uma sentença de morte. Foram os pilotos americanos que pilotavam as aeronaves navais que cumpriram muitas dessas sentenças.

Submarino alemão U-507.

Em agosto de 1942, o U-boat U-507 chegou à costa brasileira, afundou navios mercantes e levou o Brasil à Segunda Guerra.

Quase 1 ano depois, em 31 de julho de 1943, um PBY-5 brasileiro avistou e afundou o U-boat U-199, modelo IX-D2, na costa do sudeste brasileiro.

Partindo do Rio de Janeiro em missão de escolta do comboio JT-3, o PBY-5, piloto pelo então Aspirante Alberto Martins Torres (que depois veio a lutar com o 1 Grupo de Aviação de Caça) avistou o U-199 navegando na superfície e deu as ordens para preparar as metralhadoras e as bombas de profundidade MK-44. Estas foram programadas com retardo, de modo a explodirem abaixo da linha da água, atingindo o costado do submarino.

Durante o mergulho, o U-199 mudou sua proa, tentando ficar no mesmo sentido do avião, mas já era tarde. O Aspirante Torres lançou as cargas de profundida próximas a proa do submarino, simultaneamente com os disparos das metralhadoras da aeronave. Esta era a doutrina à época.

A fileira de cargas detonou exatamente sobre o submarino, tendo atingido a proa, o meio e a popa. Imediatamente, a proa do submarino foi lançada para fora d’água e, por ali mesmo, parou.

Imagens de explosões das bombas próximas a um U-boat.

Após o ataque, o PBY-5 desceu rasante para evitar qualquer reação da antiaérea do U-199. Em instantes começaram a ver alguns de seus tripulantes saltando sobre o submarino. Só então perceberam um avião americano na área de combate, mergulhando na direção do U-199. Sem perceberem, haviam feito tudo conforme preconizado, passando as informações do avistamento, o que atraiu o avião americano.

Em poucos minutos, o submarino foi a pique, permanecendo seus tripulantes nadando entre a mancha de óleo que estava no local. Imediatamente, o PBY-5 lançou um bote inflável, enquanto o avião americano lançou 2. Com todos os sobreviventes a bordo dos barcos infláveis, as aeronaves abandonaram o local.

Sobreviventes do U-boat U-199.

Este foi o único U-boat afundado por uma aeronave brasileira.

Em agosto, a aeronave PBY-5 do ataque foi batizada de ARARA e recebeu na sua cauda os dizeres “Doado à FAB pelo povo carioca”, numa cerimônia realizada no aeroporto do Santos Dumont. O nome foi uma homenagem ao navio Arara afundado pelo U-boat 507, responsável por diversos outros navios afundados na costa brasileira e, diretamente, pela entrada do Brasil na guerra contra os países do eixo.

PBY-5 brasileiro que participou do afundamento do U-199 batizado de Arar.

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