Como a aviação cresceu junto com a NFL

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Os americanos aprenderam a jogar futebol americano na mesma época em que aprenderam a pilotar aviões, e não foi uma simples coincidência. “Pensar no ar” na virada do século 20 significava ir além e ainda mais alto, o esporte favorito dos Estados Unidos e a maior invenção do século cresceram e se desenvolveram juntos.

É verdade que o futebol americano sempre foi um jogo difícil, com bastante pancada. Mas, mesmo no início da década de 1870, já compartilhava de algumas terminologias similares a que futuramente seriam usadas na aviação. Os jogos incluíam as formações e o conceito de “ala”, juntamente com a “cunha voadora”, uma formação triangular de homens de linha (linemen) que protegiam o jogador que estava com a bola, que teve sua estreia no jogo de Harvard-Yale em 19 de novembro de 1892.

O famoso técnico Glenn “Pop” Warner foi o primeiro a ir mais fundo na comparação com o militarismo, comparando as equipes como exércitos, técnicos como generais, temporadas como campanhas, jogos como batalhas e jogadas como ataques. À medida com que os atletas feridos ou até aqueles que morriam em campo aumentavam, os times foram encontrando maneiras de tornar o jogo mais seguro, incluindo um novo componente aéreo: o “passe para frente”, destinado a desencorajar o jogo em massa e avançar a “revolução do giro da bola em seu eixo”, como Fielding Yost colocou.

O técnico Glenn “Pop” Warner (de chapéu) foi um dos primeiros que viu a semelhança entre o futebol americano e o militarismo.

O futebol americano estava se tornando mais parecido com a ciência e engenharia. Um dos primeiros passes para frente aconteceu em 24 de novembro de 1906, quando o quarterback de Yale lançou um passe de 30 jardas para marcar uma corrida de touchdown, numa vitória espetacular contra Harvard.

Isso aconteceu apenas cinco anos antes de Santos Dumont inventar o 14-bis e, no Campo de Bagatelle, na França, alçar voo no mais pesado que o ar.

Como o futebol americano, voar era um esporte para espectadores e os jornais relegavam os dois passatempos às páginas de esportes. Os pilotos pilotavam aviões da mesma maneira que pilotavam carros, geralmente nos mesmos locais, como a pista de Indianapolis. Com a formação da Liga Nacional de Futebol Americano (NFL) após 1920, as cidades americanas formaram equipes competitivas que atraíram atletas dos melhores programas de faculdade.

Como as aeronaves de acrobacias, essas equipes viajavam de cidade em cidade, sofrendo ambos os esportes com todos os tipos de clima. Os heróis do futebol americano e os heróis da aviação se tornaram garotos propagandas, como a estrela vermelha Grange, cuja imagem vendia barras de chocolate e sabão, e Charles Lindbergh, cujo nome vendia praticamente qualquer coisa.

Em pouco tempo, a aviação começou a desenvolver laços mais diretos com o jogo. Em 1916, um esquadrão chamado “The Football Special” transportou espectadores de Nova York para Nova Jersey para o jogo de Yale-Princeton. Aviões jogavam panfletos nas multidões dos estádios e rebocavam faixas nas suas cabeças com propagandas.

Partida de futebol americano no Estádio de Griffith às vésperas da entrada oficial do EUA na Segunda Guerra, em 7 de dezembro de 1941.

À medida que os aviões se tornaram mais aerodinâmicos, o futebol americano também se desenvolvia. Já na década de 1930, a bola, uma vez arredondada, assumia uma forma mais cônica nos longos passes em espiral que encantavam o jogo. Nesse momento, o futebol e a aviação compartilhavam o mesmo design: capacetes curvos e aviões e dirigíveis se deslocando em arcos no espaço.

O futebol se tornou uma parte tão central da cultura masculina da América que os soldados adaptaram seus termos para a aviação e vice-versa. O General Hap Arnold, do US Army Air Corps, escreveu um livro em 1938 chamado “This Flying Game”, comparando a aviação militar a um jogo de futebol americano que exigia treinamentos e rotinas, com formações próximas e pousos de precisão.

Claire Chennault e seus Flying Tigers no teatro asiático da Segunda Guerra Mundial treinaram até mesmo como um time de futebol, usando seus scrimmages como sessões de treino para as próximas missões. O Exército passou a definir as distâncias com que seus helicópteros e aeronaves manobrassem e disparassem pelo comprimento de campo de futebol.

As metáforas do futebol americano eram inevitáveis ​​em um país em guerra. As tripulações dos bombardeiros B-17 apelidaram o instrumento de mira “Norden bombsight” de “football”, torcendo para um lançamento perfeito nos alvos. O Tenente Tom Harmon, que ganhou o Heisman Trophy em 1940, tinha um mascote pintado em seu bombardeiro B-25: um bulldog do futebol americano usando sua camisa #98, só que agora jogando uma bomba em vez de uma bola de futebol.

O sistema de mira “Norden bombsight” que equipava as Fortalezas Voadoras, foram apelidadas de “Football”.

Durante a Guerra da Coréia, os generais da Força Aérea discutiram sobre “ir fundo” para bombardear alvos estratégicos de transporte e industriais da Coréia do Norte acima do paralelo 38. A Operação Linebacker (1968-1972) durante a Guerra do Vietnã, com os bombardeios B-52 Stratofortress, tentaram defender o Vietnã do Sul das ofensivas do Vietnã do Norte, da mesma forma que um linebacker impedia as corridas em um jogo de futebol americano.

A Marinha dos EUA talvez tenha sido o serviço mais criativo em sua adoção da ideologia do futebol americano. Ao contrário do Exército e da Força Aérea, seus programas de academia e treinamento continuaram tendo o futebol americano como o esporte a ser treinado durante a Segunda Guerra Mundial.

O comandante Thomas Hamilton, ex-técnico da Academia Naval, ajudou a escrever uma série de manuais de treinamento físico de aviação naval para o futebol americano, como o que ensinava “Combate corpo a corpo”. Como afirmava: “Futebol! Marinha! Guerra! Em nenhum momento da história essas palavras foram mais entrelaçadas do que são agora”.

O manual comparava as melhores qualidades do jogador de futebol e do aviador: “agressividade (física e mental), aptidão física, coordenação, estado de alerta, disciplina, trabalho em equipe e resistência”. As equipes de futebol dos esquadrões adotaram os nomes dos próprios aviões de guerra da Marinha: Wildcats e Mustangs, Buccaneears e Mariners, Devastators e Helldivers.

O futebol americano no período de guerra da Marinha rendeu algumas conquistas de volta ao esporte. Entre os ex-alunos estavam o quarterback Otto Graham, futuro astro do Cleveland Browns, assim como os assistentes técnicos, Paul “Bear” Bryant e Woody Hayes, futuros treinadores do Alabama Crimson Tide e Ohio State Buckeyes. O Tenente Don Faurot, técnico do Missouri Tigers da Marinha, deu ao futebol a formação “split-T”, precursora do “spread offense”, a fim de afrouxar a linha para os passes ou corridas.

A marinha americana é uma das que mais investe no futebol americano como esporte nas suas academias militares.

O futebol americano da marinha também contribuiu diretamente para as táticas militares, como no caso de Jimmy Thach e sua famosa formação de “trançar”. Sentado em sua mesa da cozinha em San Diego e aproveitando sua carreira no futebol no ensino médio e na Academia Naval, ele usou palitos de fósforo para criar uma formação e uma série de movimentos para seus vulneráveis ​​Grumman Wildcats. Isso os ajudou a se defender e atacar os aviões japoneses Mitsubishi Zero, que tinham maior capacidade de manobra. Thach e a Marinha logo o usaram com sucesso na Batalha de Midway, em junho de 1942.

O uso militar dos termos do futebol americano continuou na era nuclear. James Conant, arquiteto do Projeto Manhattan, certa vez reclamou que os norte-americanos que lamentavam a decisão de lançar as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki estavam envolvidos no “Monday Morning quarterbacking”, fazendo uma alusão as pessoas que criticavam os passes dos jogadores logo após os jogos.

O secretário de Defesa Louis Johnson descreveu um possível intercâmbio nuclear com a União Soviética como uma “First Exchange of Bombing Punts”, em alusão ao Punt, onde um time chuta a bola para o outro time, transferindo a responsabilidade da mesma.

O primeiro Plano Operacional Integrado e Único (SIOP) do país, sob a batuta do presidente Dwight Eisenhower, projetado para otimizar os planos de guerra nuclear contra os alvos mais precisos, também foi apelidado de “Drop Kick”, quando o kicker deixa a bola quicar no chão antes de chutá-la num extra point.

E não vamos esquecer as maletas que os oficiais militares carregam para o presidente, que contém contingências e códigos de lançamento de mísseis, chamados de “football”.

Na década de 1960, o futebol americano começou a subir de popularidade lentamente até substituir o beisebol como o esporte favorito do país. Os quaterbacks dominaram a “Bomb”, um passe longo para um touchdown, e os passes em profunidades se tornaram a regra nos programas universitários e profissionais. No século 21, as câmeras suspensas por cabo, com vistas de cima do campo, capturaram tudo isso para o público da televisão.

Com os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o Super Bowl se tornou um evento especial de Segurança Nacional, digno de proteção aérea, com o Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte (NORAD) envolvido no Super Bowl XLII com aeronaves de vigilância U-2A, helicópteros Blackhawk e vários F-16.

Uma esquadrilha de F-16 sobrevoa um estádio da NFL antes do jogo.

À medida que o futebol americano e a aviação embarcam em um novo século de conquistas, há uma ênfase crescente na segurança dos atletas. Assim como as companhias aéreas comerciais trabalham para voar com mais segurança, a NFL passou a dar mais atenção aos riscos de fraturas nos jogos. Para sobreviver a outro século, talvez seja necessário se tornar ainda mais um jogo aéreo do que no passado.

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