Encontros com bombardeiros sobre a Alemanha

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Enquanto o Comando de Bombardeiros da RAF havia terminado sua campanha contra Berlim, a Oitava Força Americana continuava com seus ataques diurnos. A RAF manteria incursões noturnas regulares com os aviões Mosquitos para manter a capital alemã acordada até o final da guerra.

Os pilotos da Luftwaffe estavam fazendo o possível para protegerem as cidades alemães dos bombardeiros. Desde o início do ano, eles tiveram que lidar com um número crescente de caças aliados, escoltando os bombardeiros durante todo o caminho.

Apesar dos ataques aliados à indústria aeronáutica alemã, não faltavam aviões de combate para a Luftwaffe. Foram as perdas dos pilotos de caça alemães que estavam causando toda a dificuldade. Até os pilotos mais experientes estavam descobrindo que as probabilidades contra eles aumentavam a cada dia.

Para o ás da Luftwaffe, Heinz Knoke, o desafio foi especialmente evidente:

Heinz knoke na nacele do seu Bf-109.

“29 de abril de 1944

Três divisões de bombardeiros acabaram de deixar a região de Great Yarmouth e se dirigem para o continente. Nossas unidades avançadas na Holanda assinalam que o inimigo dispõe de escolta numerosa.

Recebemos ordens para travar combate a qualquer preço com os caças inimigos, para permitir que vários grupos de Focke-Wulf interceptem as Fortalezas com o máximo de eficácia.

Via Amsterdam, Zuyderzeé e Deventer, a armada americana alcança a fronteira alemã a oeste de Rheine. Às onze horas suas pontas avançadas sobrevoam o campo que nossos aviadores evacuaram provisoriamente.

Focke-Wulf 190 foi fundamental na defesa do Terceiro Reich.

Decolamos às 11:04h, descrevemos uma larga curva para nos agruparmos e começamos a ganhar altura.

– Bombardeiros em Gustavo-Quebec. Hanni oito zero.

6000 metros, 7000, 8000. Do norte e do sul decolam outros grupos de caça, na maioria Focke-Wolf.

– Bombardeiros agora em Gustavo-Siegfried.

– Victor-victor…

Continuo a subir até os 9000 metros. O motor, especialmente adaptado para o ar rarefeito, obedece com espantosa facilidade.

Às 11:30h distingo, a oeste, os rastros de condensação dos Lightning, que formam a vanguarda inimiga.

Minutos depois, eles passam sob minhas asas, seguidos pelo interminável desfilar dos bombardeiros. Enxames de Thunderbolts e Mustangs volteiam pelos lados, por baixo e por cima.

As maciças formações de bombardeiros que atacaram a Alemanha se estendiam por quilômetros.

Nossos Focke-Wulf se lançam ao ataque.

Imediatamente, inicio uma curva e avanço contra um grupo de Lightning. Eles já nos viram e, numa ampla curva, vêm ao nosso encontro. Pouco além, ao sul, uma massa de uns quarenta Thunderbolt também muda de rumo e se atira sobre nós. Era exatamente o que queríamos.

Colo durante alguns minutos na esteira de um Lightning, que ziguezagueia, derrapa, desce e volta a subir. Só de vez em quando consigo mandar-lhe uma saraivada de tiros. O animal sabe pilotar.

De súbito, um bando de Mustang executa uma passagem frontal, que corta minha trajetória. Suas traçantes passam raspando minha capota. Cabro meu “zinco” com ambas as mãos. Olhando por sobre os ombros, vejo que meu ala, encarregado de cobrir-me a retaguarda, seguiu-me fielmente e continua a me proteger.

Outro Lightning tem a ideia estúpida de vir passear sob meu nariz. Desta vez consigo acertar minhas rajadas. Espessa fumaça escapa de seu motor direito.

Não posso explorar minha vantagem. Oito Thunderbolt colam-se à minha esteira. Suas balas me enquadram de perto.

Os P-38 eram, costumeiramente, engajados na escolta dos bombardeiros aliados.

Manifestamente, os pilotos americanos contra os quais estamos lutando são experimentados veteranos. Por muito que me debata e tente minha famosa chandelle em saca-rolhas, eles continuam firmes no meu rasto. Ainda bem que minhas manobras os impedem de fazer boas pontarias.

Mas um dos americanos, levado por seu impulso, me ultrapassa e se coloca a minha frente. Aperto o gatilho dos meus canhões, mas ele já guinou para juntar-se aos seus companheiros, que continuam me alvejando das 6 horas.

Apesar do frio glacial, estou banhado de suor. Sinto meu corpo dolorido como se tivesse levado uma surra. Ora sou lançado para a direita, ora para a esquerda, afundando no meu assento ou suspenso de cabeça para baixo, segurado pelas fivelas do meu avião. A náusea começa a me afetar.

Meu Deus, como são longos estes combates.

Entrementes, os Focke-Wulf fizeram bom trabalho. Quase não tenho tempo para olhar em volta, mas ainda assim posso ver umas trinta Fortalezas que se debatem em chamas. Mas apenas uma gota no mar. Centenas ainda continuam seu rumo para o Leste.

Daqui a pouco os berlinenses vão começar a sentir o calor lá embaixo.

A luz vermelha do indicador de combustível acaba de acender. Meu tanque estará vazio dentro de 10 minutos.

Brutalmente, faço uma curva e mergulho na direção do solo. Os Thunderbolts me abandonam à minha sorte.

Os P-47 foram um dos principais caças de escolta dos bombardeiros, tendo obtido muito sucesso contra os caças alemães.

A mil metros, bem sobre as nuvens, nivelo lentamente o avião. Segundo meus cálculos, devo estar em algum lugar entre Brunswick e Hildesheim.

De repente, meu ala curva e se precipita para as nuvens. Viro intrigado para ver. Santo Deus! Um Thunderbolt me segue a poucos metros, seguido de outros sete que provavelmente, aguardam a ocasião para intervir.

…”

Heinz Knoke foi abatido no regresso da missão, mas antes de fazer um pouso forçado, ainda abateu seu algoz. Mas essa história ficará para outro artigo.

Knoke escreveu um livro autobiográfico sobre os combates que realizou na Segunda Guerra, em especial aos combates contra as grandes formações de bombardeiros. Seu livro é considerado como obrigatório para os amantes da aviação militar. Infelizmente, não é possível encontrá-lo novo, já que a sua editora, a Flamboyant, já não imprime mais novas versões.

A dica, neste caso, é procurar em sebo e, em especial, na internet. Boa sorte na busca e até a próxima.

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