O A-10 permancerá na ativa por mais 20 anos

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A Força Aérea dos EUA decidiu manter o caça A-10 “Warthog” de Apoio Aéreo Aproximado em serviço até 2040. A aeronave, projetada para dominar os campos de batalha da Guerra Fria destruindo os tanques russos, ainda estará voando 50 anos após o colapso da União Soviética. Essa é a boa notícia. As más? Os serviços para prorrogação da sua vida útil limitarão a sua atuação para somente bombardear os inimigos e insurgentes num espaço aéreo levemente defendido, excluindo os voos sobre as colunas de blindados.

A história do A-10 Thunderbolt II começou com a experiência dos EUA no Vietnã. Os Estados Unidos tinham uma frota de jatos caros e polivalentes, como o F-105 Thunderchief e o F-4 Phantom. Mas, nas selvas do Sudeste Asiático, esses aviões de guerra mais sofisticados cederam grande parte da missão de Apoio Aéreo Aproximado as aeronaves simples movidas a hélice, como o A-1 Skyraider da época da Guerra da Coréia e os helicópteros do Exército. Essas aeronaves podiam manobrar com mais facilidade em baixas altitudes e tinham maiores alcance e tempo de espera para prestar apoio aéreo às operações de infantaria.

Na década de 1970, o Pentágono havia aprendido sua lição. O programa A-X, que buscava uma nova aeronave de ataque, solicitava uma aeronave que fosse feita para cumprir as ações de Apoio Aéreo Aproximado, mas que era muito mais difícil de ser abatida e poderia sobreviver aos impactos das artilharias antiaéreas. O A-10 da empresa Fairchild competiu contra o Northrop YA-9A, que também empregava uma configuração de asa reta com dois motores. No entanto, o YA-9A, com seus motores montados na raiz da asa e cauda única, foi considerado mais vulnerável. Assim, em 1972, a Força Aérea escolheu o Warthog.

O A-10 concorreu com o YA-9A durante o projeto A-X para uma aeronave dedicada a ação de Apoio Aéreo Aproximado.

O que a América havia escolhido com o A-10 havia sido uma aeronave monoplace, com asa baixa e reta, com dois motores turbofan sem combustão montados no alto, atrás da asa e na frente de uma empenagem com estabilizadores verticais duplos. O avião carregaria 10.000 libras de combustível interno perto das raízes da asa, o que lhe garantia uma boa autonomia no campo de batalha.

Nos anos posteriores, as pessoas começaram a dizer que o A-10 era um avião projetado em torno de uma arma, o seu canhão rotativo GAU-8 Avenger de 30 mm, para ser mais específico. Mas o projeto previa uma configuração que ia muito além daquele canhão no nariz.

A asa grande e reta do A-10, com seus ailerons grandes, proporcionam uma excelente capacidade de manobra em baixa velocidade e baixa altitude. A asa também permite decolagens e pousos curtos. Isso é útil, porque esse avião frequentemente precisa operar a partir de campos de aviação primitivos próximos à linha de frente. Se a aeronave sofresse danos de batalha e fosse necessário a substituição de alguma parte danificada, suas seções poderiam ser substituídas facilmente e por materiais improvisados, o que agrega flexibilidade e disponibilidade ao projeto em caso de conflito.

Seus dois motores General Electric TF-34-GE-100 produzem 9.000 libras de empuxo cada. Sua posição não apenas os protege de serem danificados por FOD que voam de pistas despreparadas, mas também direciona seus gases de exaustão sobre as duas caudas, ajudando a protegê-los da detecção de mísseis infravermelhos. O fato de ambos estarem perto da linha central da aeronave facilita a pilotagem quando há uma falha.

A cabine do A-10 e partes de seu sistema de controle de voo são protegidas por 1.200 libras de armadura de titânio, chamada de “bathtub”, a qual pode suportar impactos diretos de projéteis de até 23 mm. O pára-brisas e a capota dianteira são resistentes às armas pequenas. Essa proteção é combinada com sistemas hidráulicos redundantes e um sistema mecânico que ainda funciona mesmo se a hidráulica for perdida.

O A-10 foi desenvolvido focado na sobrevivência da aeronave num cenário com alta probabilidade de ser atingido.

Toda essa gama de cuidados com a proteção dos pilotos e da sobrevivência da aeronave foram responsáveis por trazer suas tripulações sãs e salvas de volta para casa. Um exemplo de um desses casos ocorreu em 2003 em Bagdá, durante a operação Iraq Freedom.

Durante uma missão de Apoio Aéreo Aproximado, a então Cap Kim Campbell, do 75th Fighter Squadron, foi atingida pela artilharia antiaérea, o que produziu sérios danos no estabilizador vertical e horizontal direito, além de perfurações na fuselagem e na carenagem do motor.

Após os impactos, a aeronave se tornou incontrolável, girando para a esquerda e apontando para o solo. Depois de algumas tentativas de retomar o controle da aeronave, Campbell acionou o sistema mecânico de controle de voo, o que permitiu que a aeronave respondesse aos seus comandos. Após estabilizar a situação, ela conseguiu voltar a sua base com a ajuda do seu ala. Se não fossem os sistemas redundantes do A-10, talvez o desfecho tivesse sido outro.

Cap Kim Campbell foi uma das tripulações salvas pela robustez do A-10.

Voltando para o futuro do A-10, a Força Aérea Americana planeja cortar 44 jatos da atual frota de 281 aeronaves do A-10. Os 237 jatos restantes voarão em sete esquadrões divididos entre três no serviço ativo, três na Guarda Nacional e um esquadrão de reserva. A retirada de uma parte da frota permitirá que seja financiada as atualizações projetadas para manter o A-10 voando, como um avião novo, e possa aproveitar a nova geração de sistemas de data-link e comunicação da Força Aérea, aumentando a capacidade do avião em ser empregado num campo de batalha digital no futuro.

Além dos A-10, a Força Aérea planeja cortar 29 aviões de reabastecimento em voo, 24 aeronaves de transporte C-130H (a versão atual é -J), 24 drones Global Hawks e 17 bombardeiros B-1B Lancer. Todas as aeronaves tripuladas são mais antigas, principalmente os reabastecedores aéreos, alguns dos quais entraram em serviço na década de 1950. Os aviões mais antigos costumam ser mais caros para se manter em serviço, pois as peças de reposição e a vida útil das peças principais se tornam um problema. Ao aposentar os aviões mais antigos, a Força Aérea espera liberar fundos para comprar e conseguir suportar os novos projetos.

Como dito, o A-10 está sendo mantido sob uma condição: não será mais designado para sobrevoar os campos de batalha fortemente defendidos. A Força Aérea está convencida de que a aeronave, projetada para lançar mísseis, foguetes e bombas, e empregar seu canhão Gatling GAU-8 / A de 30 milímetros não são mais capazes de voar e de sobreviver num cenário onde as defesas aéreas possuem “dois dígitos”. Isso inclui o sistema de mísseis terra-ar SA-11 “Buk”, o sistema SA-15 “Tor”, o míssil terra-ar de ombro SA-24 “Needle” e o sistema de mísseis SA-22 “Pantsir-1” montado em caminhões.

Em vez disso, o Warthog será relegado a apoiar as tropas americanas em cenários “levemente contestados ou defendidos”. Pense em insurgentes dirigindo caminhonetes com metralhadoras aparafusadas no assoalho, além de um ou dois mísseis terra-ar de ombro. Pense no Afeganistão ou na Somália – não na Rússia ou na China.

Mas então, o que substituirá o A-10 nos céus dos adversários dos Estados Unidos? O F-35, é claro.

A USAF planeja usar o F-35 como o substituto do A-10 no cumprimento das ações de Apoio Aéreo Aproximado.

Em um aspecto, essa é a decisão correta, já que, apesar do gosto dos EUA pelo A-10, o Warthog seria provavelmente derrubado em massa por um inimigo competente no campo de batalha com armas e mísseis de defesa aérea modernos.

O F-35 é mais rápido e mais responsivo à batalha terrestre onde as mudanças no cenário acontecem mais rapidamente, e suas qualidades furtivas o tornam alvos mais difíceis de serem abatidos, sem falar que seus sensores e sistemas de comunicações o permitem coletar dados sobre as ameaças terrestres para que o piloto possa combatê-las efetivamente.

O problema com o F-35 cumprindo as ações de Apoio Aéreo Aproximado é que ele carece de armamento. O A-10 Thunderbolt foi concebido para esta missão, visto a metralhadora Gatling GAU-8 / A Avenger de 30 milímetros (com 1.174 munições) e seus mísseis Maverick, seus foguetes de 70 milímetros e suas bombas guiadas e não guiadas.

O som característico do seu canhão se tornou uma das marcas registrada do A-10, impactando, principalmente, no inimigo.

O F-35, por outro lado, está armado com um canhão GAU-22 “Equalizer” de 25 milímetros (com apenas 181 disparos) e pode carregar apenas duas bombas LGB ou guiadas por GPS em seus compartimentos internos. O F-35 pode carregar mais armamentos nos pontos duros sob suas asas, mas isso aumenta a sua visibilidade nos radares inimigos.

Ainda assim, o F-35 pode não manter a missão de Apoio Aéreo Aproximado por muito tempo, já que sua hora de voo custa em torno de U$ 45.000, o que tende a pressionar a Força Aérea a decidir sobre a alocação de uma aeronave mais barata para executar tais missões, tendo a capacidade de voar em missões num espaço aéreo contestado. E qual a melhor aeronave então? O A-10, novamente, sem levar em conta o aspecto do cenário moderno.

A decisão da Força Aérea é uma vitória para os fãs do A-10, mas ver aquela aeronave robusta aos danos de batalha, blindada em titânio, sobrevoando legiões de tanques inimigos, achatando-os como panquecas, evitando os mísseis inimigos, parece ter chegado ao fim.

Ainda assim, o Warthog da década de 1970 está voando muito mais tempo do que se esperava e pode até rir da cara do F-35 no futuro, assim esperam todos os seus fãs.

Na literatura mundial há um livro chamado “Warthog: Flying the A-10 in the Gulf War“, onde o autor, Willian L. Smallwood, entrevista mais de 100 pilotos de Warthog e narra suas missões durante a operação Desert Storm em 1991. O livro apresenta de maneira impressionante as histórias dos pilotos que, se expondo as artilharias antiaéreas de Saddam Hussein, travaram mortíferas batalhas contra os tanques das forças republicanas do Iraque, com muitas delas causando fortes danos aos Thunderbolts.

Como se não bastasse, está previsto para ser lançado em 19 de novembro de 2020 um livro ilustrado sobre o A-10, prometendo contar a história desta magnífica aeronave desde sua entrada em serviço até os dias atuais. Sejamos pacientes e aguardemos um pouco mais.

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