O americano vira-casaca – conheça o único oficial americano a desertar para o nazista na Segunda Guerra

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O nome Martin James Monti não pode ter a mesma medida de infâmia nos Estados Unidos que Benedict Arnold, o notório vira-casaca da Guerra da Independência. No entanto, o obscuro nativo de St. Louis, Missouri, mantém a dúbia distinção como sendo o único soldado americano conhecido por ter desertado para o lado dos nazistas na Segunda Guerra Mundial.


Nascido em 1921, Monti era um dos sete filhos de pais imigrantes que trabalharam duro em St. Louis. Seu pai era um próspero corretor de investimentos originário da região italiana da Suíça e sua mãe era da Alemanha.

Criado como católico durante os anos 30, Monti tornou-se um entusiasta anticomunista e ávido fã do padre Charles Coughlin, o notório “Radio Priest” com uma agenda anti-semita, anticomunista e pró-fascista. Em 1936, Coughlin foi silenciado pelo Vaticano, a pedido da igreja católica americana, e com a cooperação do Cardeal Eugenio Pacelli (mais tarde Papa Pio XII).

Em outubro de 1942, Monti viajou para Detroit para se encontrar com seu ídolo, padre Coughlin. O que aconteceu nesta reunião é desconhecido, mas logo após, Monti tentou se alistar na Marinha, na qual quatro de seus irmãos estavam servindo com honras.

Não tendo sucesso, em 29 de novembro, Monti se alistou no Corpo Aéreo do Exército Americano como cadete, no intuito de se tornar um piloto. Ele se apresentou para treinamento no início de 1943 e, em março de 1944, foi declarado Oficial Aviador.

Posteriormente, se qualificou no P-39 Aircobra e no P-38 Lightning, sendo promovido a Segundo Tenente. Em agosto de 1944, Monti embarcou para a Índia, onde foi anexado ao Batalhão 126º, em Karachi (agora no Paquistão), aguardando a designação para um esquadrão de combate.

Tornou-se um crítico do apoio dos Aliados ocidentais à União Soviética, onde o jovem oficial aviador via a Alemanha nazista como a melhor esperança para impedir o que via como a ameaça real à paz mundial: o bolchevismo.

Ao longo dos anos que antecederam sua ida para a guerra, Monti criou um esquema para se juntar ao lado dos fascistas, de modo a poder lutar contra a ameaça vermelha.

Em 1º de outubro, vestindo seu uniforme, Monti, agora promovido a Primeiro Tenente, pegou uma carona em um avião de transporte Curtiss C-46 com destino ao Cairo. Depois conseguiu outra carona de avião para Trípoli e outra para Nápoles, onde chegou no dia 4.

Na Itália, Monti dirigiu-se ao complexo de bases aéreas aliadas, Foggia, a leste de Nápoles, onde chegou no dia 10. Em Foggia, ele visitou o 82º Grupo de Caças, no qual alguns de seus amigos da escola de voo estavam servindo, e tentou ser designado para um esquadrão de combate. Sem papelada, ele foi recusado. Então seguiu para Pomigliano d’Arco, norte de Nápoles, onde o 354º Esquadrão do Serviço Aéreo fazia as manutenções e preparava as aeronaves para serem designadas para os esquadrões da linha de frente.

Em 13 de outubro, passando por piloto do 82º Grupo de Caças, Monti entrou em um “voo de teste” de um P-38 de reconhecimento, decolando por volta das 12h30. Cerca de duas horas depois, ele pousou numa pequena pista de grama perto de Milão, e logo foi detido pelas tropas alemãs.

O P-38 de Monti pintado com as famosas cruzes das aeronaves da Luftwaffe.

Embora alegasse que queria servir o Reich, Monti foi inicialmente tratado como um prisioneiro de guerra e designado para uma Luftstalag, um campo de prisioneiro. No entanto, em meados de novembro, os alemães decidiram que Monti era realmente um desertor (talvez as ordens de prisão transmitidas pelas forças americanas em 14 de outubro tenham ajudado).

Monti fez várias transmissões de propaganda na rádio de Berlim e também ajudou a preparar uma literatura para distribuição às tropas americanas, usando o nome “Capitão Martin Weithaupt”, baseado no nome de solteira de sua mãe, alegando ser um oficial do exército que havia desertado para os alemães quando decidiu que a guerra era na verdade uma conspiração comunista para escravizar o mundo e que os EUA deveriam ser aliados da Alemanha e não da Rússia.

Eventualmente, Monti ingressou no Waffen-SS como um Untersturmführer (um rebaixamento, já que o posto equivalente era o de Segundo Tenente), designado para o SS-Standarte Kurt Eggers. Inicialmente permanecendo em Berlim realizando tarefas de propaganda, mais tarde, Monti recebeu ordens para se reportar à sua unidade no norte da Itália.

Em 10 de maio de 1945, logo após a rendição da Alemanha, Monti se entregou às forças americanas na Itália, ainda vestindo seu uniforme da SS, o que alegou dizendo que havia sido dado a ele por Partisans que o ajudaram a escapar. Surpreendentemente, o Exército não percebeu que Monti havia desertado para o inimigo.

Ele foi acusado de ser AWOL, o que significa que não tinha autorização para se ausentar, militarmente conhecido também como desertor, além da apropriação indébita de propriedade do governo (isto é, o P-38), que ele alegou ter voado contra os alemães e ter sido abatido.

Monti foi condenado a 15 anos de trabalho duro. Em 4 de fevereiro de 1946, o Presidente Harry S. Truman trocou a sentença de Monti para que ele cumprisse o serviço militar. Uma semana depois, Monti se alistou como soldado no Corpo Aéreo do Exército.

Monti (à dir) visto aqui durante seu julgamento na corte marcial.

Logo depois disso, as atividades de Monti em tempo de guerra começaram a atrair mais atenção. Alertado por um oficial de investigação criminal do Exército que havia lidado com o caso, em novembro de 1947, o colunista Drew Pearson contou a história no Washington Post. Isso deu início a uma grande investigação das atividades de Monti. Detido, em 26 de janeiro de 1948, Monti, então sargento, foi dispensado, agora já na Força Aérea em Mitchell Field, Nova York, e prontamente preso pelo FBI.

Monti foi avaliado por uma equipe de psicólogos. Eles descobriram que ele era de inteligência superior (um QI acima de 130), mas era imaturo e tinha tendências obsessivo-compulsivas, além de paranoias, embora legalmente ele não estivesse doente mental.

Certamente não é preciso um psiquiatra para perceber que Monti não tinha bom senso; com os americanos e britânicos no Westwall, na Linha Siegfried, e os russos nas fronteiras da Prússia Oriental, outubro de 1944 dificilmente era hora de desertar para os nazistas.

Levado a julgamento por acusações de traição, em 17 de janeiro de 1949, Monti, pela primeira vez, alegou ser “não culpado”, mas depois mudou imediatamente para “culpado”. No dia seguinte, ele foi condenado a uma multa de U$ 10.000 e a 25 anos de prisão.

Monti em uma das suas poucas aparições.

Ele foi libertado em 1968 e viveu em relativa obscuridade até sua morte aos 78 anos de idade, em 9 de novembro de 2000, na cidade de Missouri.

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