O primeiro ás espacial

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Em 13 de setembro de 1985, às 12h42, o Major Wilbert “Doug” Pearson apertou o “pickle button” no cockpit do seu F-15A, lançando um míssil para o alto no Oceano Pacífico.

Ele estava em uma subida íngreme, voando abaixo de Mach 1 e cruzava 36.000 pés. O míssil rugiu em direção ao seu alvo, o satélite Solwind P78-1 se movendo a 17.500 mph, quase 300 milhas acima da aeronave de Pearson.

Como o míssil desapareceu de vista, tudo o que Pearson pôde fazer foi esperar, já que ele não seria capaz de ver se havia atingido o alvo. Mas seu amigo Scott na sala de controle saberia. Eles elaboraram um código para que Pearson descobrisse se o alvo havia sido destruído.

O combinado seria: Pearson diria após o lançamento, “Vou nivelar a 36.000 pés”. E se tivesse tido sucesso na interceptação do satélite, Scott responderia, “Roger, Aggie-1 (indicativo de chamada de Pearson). Essa é uma boa altitude”. Caso contrário, Scott deveria dizer, “Roger, Aggie-1. Recomendamos que você vá para 28.000 pés”, ou algum número diferente.

Bem, Scott nunca teve que dizer uma palavra, como relembrou Pearson. “Assim que ele abriu a fonia eu ouvia todos os gritos e aplausos no fundo”. Pela primeira vez na história, um satélite fora destruído no espaço por um avião.

Este fato continua sendo um momento único na complicada corrida espacial entre as duas potências espaciais rivais. Embora um piloto de caça somente consiga o título de “ás” com apenas cinco vitórias, a exclusiva vitória de Pearson pode definir uma nova categoria.

A corrida armamentista antissatélite (ASAT) começou logo após os primeiros bipes da Sputnik I, em outubro de 1957. Os temores dos satélites soviéticos com armas nucleares impulsionaram o desenvolvimento inicial dos sistemas de armas americanos ASAT, que eram baseados em mísseis nucleares, lançados de aeronaves, submarinos ou do solo.

Durante 1958 e 1959, as primeiras armas experimentais ASAT dos EUA foram os mísseis ar-ar balísticos, incluindo o “Bold Orion”, lançado a partir de uma aeronave B-47 Stratojet, e a “High Virgo”, lançado a partir de um Convair B-58 Hustler.

Em 1962, a Marinha experimentou um sistema de lançamento de míssil semelhante a partir de um McDonnell F-4 Phantom. Embora cada sistema tenha sido testado, nenhum entrou em operação.

Um sistema de lançamento a partir do solo, situado no equador, tem suas vantagens: quase todos os satélites com órbita baixa da Terra acabarão passando por cima. O uso de explosões nucleares para destruir satélites, algo que foi testado durante o programa Thor, teve uma grande falha. O pulso eletromagnético resultante também destruiria outros satélites nas proximidades. E nas semanas e meses após a detonação, satélites adicionais sucumbiriam ao aumento da radiação na baixa órbita terrestre.

Ao mesmo tempo, agências e corporações dos EUA estavam realizando pesquisas antissatélite, inclusive a própria União Soviética. Os mísseis contra os satélites eram co-orbitais, ou seja, projetados para alcançar a órbita, sincronizar-se com seus alvos e detonar, enviando estilhaços para destruir os satélites inimigos.

Os soviéticos realizaram testes desses sistemas da década de 1960 até o início da década de 1980, destruindo com sucesso vários alvos. Mas os sistemas co-orbitais também tinham uma grande desvantagem: sincronizar o armamento ASAT com seu alvo exigia pelo menos duas órbitas completas da Terra, o que dava ao alvo de três a cinco horas para manobrar fora do alcance do ASAT.

O primeiro armamento antissatélite americano foi um míssil ar-ar balístico, incluindo o “Bold Orion”, carregado por um B-47.

Em meados da década de 1970, os Estados Unidos ainda não tinham um programa ASAT viável. Em uma série de memorandos de 1976, agora desclassificados, para o presidente Gerald Ford, o assessor de Segurança Nacional Brent Scowcroft expôs as recomendações urgentes para que começassem a ocorrer reuniões do Conselho de Segurança Nacional para desenvolver recursos ASAT não nucleares. “O governo Ford estava ficando cada vez mais preocupado com a forma de proteger os satélites dos EUA contra as armas antissatélites soviéticos”, disse Brian Weeden, diretor de planejamento de programas da Secure World Foundation.

Os Estados Unidos também estavam cada vez mais preocupados com os satélites de vigilância soviéticos. “Uma das coisas que eles poderiam fazer com esses satélites de reconhecimento é observar nossas forças militares literalmente em todo o mundo”, disse Pearson. “Então, queríamos ter a capacidade de poder destruir esses satélites de observação para poder manobrar nossos porta-aviões, de modo a recuperar o elemento surpresa”.

Em 1978, em resposta ao sistema co-orbital ASAT dos soviéticos, o governo Carter lançou o programa que levou ao lançamento com sucesso do major Pearson. O armamento usado foi o míssil ASM-135, desenvolvido pela LTV Aerospace. “Nossa equipe de desenvolvimento foi desafiada a desenvolver um sistema de armas que pudesse responder rapidamente, com precisão e com capacidade de ter sua trajetória flexível. Isso nos levou a um míssil ar-ar antissatélite”, diz Pearson.

O míssil ASM-135 foi baseado em dois componentes fundamentais: a aeronave que carregaria o míssil para uma certa altitude, atuando basicamente como seu primeiro estágio; e o próprio míssil, que tinha dois estágios que lançariam o Miniature Homing Vehicle (MHV), que era uma pequena nave autônoma que colidiria com o satélite. Não são necessários explosivos, apenas a energia liberada pela colisão de dois corpos no espaço que se aproximam a uma velocidade de quase 36.000 pés por segundo.

O programa foi gerenciado pela Divisão Espacial da Força Aérea e reuniu algumas companhias civis, tais como, a Boeing, Ling-Temco-Vought e McDonnell Douglas, assim como o pessoal da Força Aérea. Os voos de teste foram realizados na Base da Força Aérea em Edwards, prioritariamente na aeronave F-15.

Pearson realizou os voos de treinamento antes do lançamento real sobre a Base Aérea de Edwards.

Mas por que o F-15? “O F-15 era um cavalo de corrida”, diz Pearson. “Nós poderíamos voar supersônicos e poderíamos manobrar para o tipo certo de subida, e poderíamos integrar todos os sistemas necessários no avião para se comunicar com o míssil, além de poder carregar seguramente o míssil ASAT, já que o mesmo era muito grande, o que exigia um avião grande o suficiente. Como o míssil iria ser carregado no centerline, o F-16, por exemplo, não possuía altura suficiente para carregá-lo. Assim, poderíamos pegar aviões F-15A operacionais e, com modificações razoavelmente mínimas, transformá-los em aviões ASAT”.

Outro fator crítico foi que os computadores de 1985 puderam fazer os cálculos necessários para que o míssil pudesse interceptar o satélite muito mais facilmente do que havia sido antes. Diz Pearson: “Poderíamos fazer as contas”.

Pearson foi o principal piloto responsável pelos ensaios e voos de testes do míssil antissatélite.

O programa ASM-135 começou a ser testado em 1982. Pearson e outros quatro pilotos foram treinados para realizar a missão, e havia muito o que se praticar antes. “Eu pratiquei o perfil centenas de vezes em terra e sobre o oceano”, lembra Pearson. Ele tinha perfis para missões subsônicas e supersônicas, dependendo de qual velocidade de lançamento o míssil precisaria ser lançado para atingir os alvos orbitando em altitudes mais altas ou mais baixas.

Mas o tempo foi o fator mais importante para garantir que o MHV interceptasse o satélite alvo. Jack Anthony liderou a equipe da Base Aérea de Cheyenne Mountain, que descobriu o melhor plano de voo para o F-15 para as duas missões ASAT. “Tínhamos um monte de pessoas que conheciam o satélite, sabiam onde ele estaria e quando precisaria ser encontrado pelo MHV”, lembra ele. “E a partir daí, trabalhamos para trás.” Pearson diz: “Quando eles me deram um alvo, o pessoal de operações espaciais da Força Aérea em Cheyenne Mountain calculava um plano detalhado da missão. Era basicamente um perfil de 24 horas. Começamos bem antes do horário de lançamento, garantindo que o míssil e o avião estivessem prontos. Todos os detalhes. Cronometramos as coisas minuto a minuto, e tínhamos o lançamento do míssil planejado no segundo correto.

Cinco lançamentos de testes do míssil ASM-135 foram feitos a partir do F-15. O primeiro foi garantir que eles pudessem separar o míssil do jato e voá-lo até a altitude necessária de cerca de 340 milhas. Os três seguintes foram para apontar o míssil para uma estrela, de modo a avaliar sua capacidade de direcionamento. E o último era o verdadeiro: abater um satélite.

Nos ensaios para testar a mira do satélite, foram usadas estrelas. “O seeker do míssil estava apontado para uma estrela que tinha uma assinatura infravermelha”, disse Anthony. No último teste com estrelas, foi feito uma simulação matemática para garantir que o míssil tivesse a capacidade de reconhecer um satélite, ao invés de uma estrela ao fundo.

Testes realizados, só faltava um satélite real como alvo. O Solwind ainda estava coletando dados meteorológicos, mas oficialmente havia chegado ao limite da sua vida útil. E seria o alvo certo para o teste, que foi inicialmente definido para o dia 4 de setembro de 1985.

Pearson convidou o General Forrest McCartney, Comandante da Divisão Espacial da Estação Aérea de Los Angeles, para testemunhar o lançamento. Enquanto esperavam no clube dos oficiais pelos últimos cheques de solo, McCartney recebeu um telefonema. Pearson lembra: “Ele volta em alguns minutos e diz: ‘Bem, não são boas notícias. Os testes de hoje foram cancelados’. Alguém havia apresentado uma liminar impedindo o lançamento”.

Um punhado de representantes do Congresso, juntamente com a Federação de Cientistas Americanos, entrou com uma ação, alegando que uma certificação presidencial no Congresso, para que o teste fosse realizado, não havia chegado dentro do prazo de 15 dias antes do lançamento, conforme exigido por lei. Na verdade, ele havia sido entregue 14 dias antes.

A Iniciativa da Defesa Estratégica do Presidente Ronald Reagan (apelidada de “Star War”) acabava de ser anunciada, e muitos oponentes viam o programa ASAT como parte de uma corrida para levar armamentos para o espaço. Os opositores também se opuseram ao momento do teste: dois meses antes havia tido uma reunião entre Reagan e o primeiro-ministro soviético Mikhail Gorbachev. Assim, ponderou-se: o teste provocaria os soviéticos?

No fim, um juiz federal negou uma segunda liminar e a equipe de Pearson estabeleceu o dia 13 de setembro para o lançamento.

Por que o F-15? Duas simples palavras: potência e performance. Com uma relação peso-potência alta, o F-15 poderia subir verticalmente, o que ajudava no desempenho do míssil.

Pearson fez seu primeiro rendezvous com uma aeronave reabastecedora a cerca de 320 km da Base da Força Aérea de Vandenberg, dentro do previsto.

Anthony lembra: “O piloto decolaria e voaria o que é chamado de ‘waypoints’, e um computador de bordo diria a ele onde ir e quando estar lá. Exigia habilidades de voo precisas para chegar aos pontos e, finalmente, estar em posição, velocidade, altitude e atitude para o lançamento”.

“O sistema exigia que o lançamento ocorresse no tempo pré-planejado para poder concluir a interceptação”, lembra Pearson. “Cada ponto tinha tolerâncias cada vez mais rigorosas, e minha capacidade de correção ficava mais restrita quanto mais perto do tempo de lançamento. Se eu chegasse a cada ponto no tempo, minha confiança aumentaria significativamente, de maneira que chegaria ao ponto de lançamento dentro de todas as restrições. Quando cheguei ao último ponto, o ponto de lançamento, eu estava precisamente na hora”.

O momento chegou às 12h42, três horas e meia após a decolagem de Pearson. A 30.000 pés e em voo nivelado, Pearson levou as manetes de potência para pós-combustor, acelerou o avião para Mach 1.3 e cabrou 60 graus. O F-15 diminuiu para Mach 0,96 quando a contagem regressiva começou. No zero, Pearson apertou o botão de pickle.

O míssil se separou e o F-15 de Pearson ficou subitamente 3.000 libras mais leve. Ele girou para poder ver o míssil. “Foi apenas uma bela visão ver o míssil ali e a chama saindo do motor do foguete. O satélite Solwind estava então sobre o Havaí, aproximando-se a 23.000 pés por segundo. “E o míssil acelerando para cerca de 13.000 pés por segundo”, disse Pearson. “Então você tem uma interceptação ocorrendo a 36.000 pés por segundo.” Ele esperou até o momento em que sabia que o impacto deveria ter ocorrido, para então fazer contato com seu amigo Scott na sala de controle, quando ouviu os gritos.

O ASM-135 possuía um pequeno (MHV) que se separava do míssil e, através de um seeker IR, se guiava na direção do satélite.

“Foi um grande dia”, diz Pearson. “Tínhamos centenas e centenas de pessoas trabalhando muito, por muito tempo, para tornar isso um sucesso, e foi. Isso teve um grande impacto em nossos adversários porque eles eram dependentes em ter um satélite de reconhecimento, mas agora sabiam, comprovadamente, que poderíamos se contrapor a isso. Eu acho que do ponto de vista deles, fizemos com que parecesse fácil. Nós decolamos, voamos e destruímos o satélite. Eles nunca nos viram suar, em outras palavras.

“Havia uma série de desafios técnicos que alguns pensavam que não podíamos superar”, lembra Pearson. “Trinta e cinco anos atrás, acertar uma bala com uma bala parecia impossível para muitas pessoas. O programa F-15 ASAT demonstrou claramente que um objeto de alta velocidade, mais rápido do que uma bala veloz, poderia ser guiado a um impacto preciso em outro objeto, ainda mais rápido”.

Mas o programa ASM-135 teve apenas mais dois voos no ano seguinte, antes do Congresso cortar seu financiamento. “Eu realmente pensei que íamos implantá-lo”, diz Pearson. “Não havia dúvida de que teríamos dois esquadrões cumprindo voos de ASAT, um na costa leste, outro na costa oeste. Mas não era para ser”.

Uma interrupção nos testes do ASAT nos EUA fazia parte de um acordo com o  Pentágono: os negociadores do Senado concordaram com a proibição de testes do ASAT em troca da aprovação da produção de novas armas químicas.

Pearson se aposentou em 2005 como General no comando do Centro de Testes de Voo da Força Aérea em Edwards. Refletindo sobre o legado da missão, ele disse: “O programa teve um número significativo de sucessos, dos quais o planejamento e a compreensão de como interceptar um satélite na órbita da Terra com outro objeto. Essa não é uma tarefa simples. E ser capaz de vigiar o alvo, observá-lo, olhar para ele, prever onde ele estará a cada segundo e, em seguida, ser capaz de colocar outro objeto no mesmo espaço, não é facil. Nós entendemos como fazer isso e demonstramos que poderíamos fazer isso. Foi um grande negócio”.

Uma consequência secundária da destruição do satélite foram os 285 pedaços de detritos que a colisão criou. Demorou quase 19 anos para que tudo voltasse à atmosfera. A equipe do ASM-135 certamente sabia que o lixo espacial flutuante se espalharia e levaria anos para cair em órbita, mas a atitude em relação aos detritos era mais casual na época.

Em 2007, um míssil chinês ASAT terrestre derrubou um satélite climático antigo, criando 3.000 pedaços de detritos, um enorme campo que causou indignação internacional. O teste também desafiou a percepção de que os Estados Unidos dominavam o espaço. “Basicamente, sinalizou que, se houve um breve período de tempo em que os EUA não foram desafiados no espaço, isso estava acabado praticamente”, diz Weeden.

Em 2008, o Pentágono encarregou a Marinha dos EUA de disparar um míssil SM-3 do USS Lake Erie para destruir o satélite USA-193 que estava inoperante. O ataque foi explicado como uma maneira de impedir que as 500 libras de combustível de hidrazina do satélite sobrevivessem à reentrada como uma nuvem tóxica. O Pentágono garantiu à imprensa e ao público que havia tomado as medidas para minimizar os detritos criados. 174 peças rastreáveis ​​foram previstas cair na atmosfera dentro de 48 horas após a colisão. Na verdade, o último detrito voltou a entrar na atmosfera somente 18 meses depois.

O mesmo F-15 que Pearson (à esquerda) pilotou na sua histórica missão antissatélite era pilotado, 22 anos depois, por seu filho, Cap Todd Pearson, num voo comemorativo ao evento.

Até os pequenos pedaços de detritos representam enormes riscos para os mais de 1.700 satélites e outras naves espaciais atualmente em órbita. “Os satélites estão muito mais entrelaçados com a maneira como conduzimos atividades militares, econômicas, civis e científicas”, diz Laura Grego, cientista sênior de Segurança Global da Union of Concerned Scientists. “Não existem mais duas superpotências. Existem mais de 70 países que lançaram seus satélites no espaço. Eles fazem todo tipo de coisa, além da segurança nacional”.

Em 11 de maio de 2017, o diretor de inteligência nacional dos EUA, Dan Coats, testemunhou na audiência do Comitê Selecionado de Inteligência do Senado no Congresso que a Rússia e a China “continuarão a buscar uma gama completa de armas ASAT como forma de reduzir a eficácia das forças armadas dos EUA”.

Os conceitos atuais do ASAT que não usam o acerto para destruir incluem o uso de lasers para ocultar os satélites e obstruir os sinais de uplink e downlink. Os recentes mísseis desenvolvidos atingiram objetos suborbitais, com a consequente ausência de detritos em órbita.

Grego é consultor técnico do MILAMOS, o Manual de Direito Internacional Aplicável aos Usos Militares do Espaço, que esclarece as regras sobre o uso militar do espaço em tempos de paz e guerra. Embora MILAMOS seja um esforço civil, Grego relata que o projeto tem apoio do Pentágono.

Até o momento, um tratado ASAT abrangente e negociado nunca foi assinado. “Definitivamente, vejo a tecnologia antissatélite ultrapassando nossos esforços para restringi-la ou concordar sobre como ela pode ser usada”, diz Grego. “Acho que estamos muito atrasados ​​para uma conversa séria entre as potências espaciais. O que queremos dizer com usos pacíficos? Como interpretamos o comportamento ambíguo? Uma conversa sólida sobre isso seria um grande passo”.

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