Quando 6 Liberators B-24 bombardearam o alvo errado

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Em 1945, seis bombardeiros Liberators B-24H americanos bombardearam acidentalmente a cidade de Zurique, na Suíça, país neutro na Segunda Guerra. Dois aviadores foram submetidos a corte marcial pelo erro.

A neutralidade na guerra já existe como um conceito legal ou social há séculos. É um ideal elevado que uma nação possa declarar ao mundo que não quer participar de nenhuma discussão além de suas fronteiras e depois confiar na tolerância dos vizinhos em guerra a respeitarem essa declaração.

Mas, infelizmente, com demasiada frequência, a história já mostrou que isto não ocorre.

As primeiras reiterações de neutralidade no mundo ocidental eram de natureza religiosa, como nos tempos medievais, quando todos os combatentes deviam poupar a igreja e seu clero da depredação e do ataque. Mas a proteção era muitas vezes ilusória, e o claustro e o clérigo frequentemente sofriam os estragos da guerra, assim como seus colegas.

Ao longo da história, as violações da neutralidade em tempo de guerra foram deliberadas e acidentais. As primeiras semanas da Primeira Guerra Mundial forneceram alguns exemplos notáveis.

A Bélgica tinha garantida independência e neutralidade pelo Tratado de Londres de 1839, mas em 1914 a Alemanha violou deliberadamente os termos do tratado quando optou por usar o território belga como a rota mais conveniente, sob seu Plano Schlieffen, para envolver o exército francês. A Grã-Bretanha, honrando seu compromisso de defender a neutralidade da Bélgica, imediatamente entrou em campo contra a Alemanha.

Como ironia do destino, então, que quando a defesa britânica de Antuérpia desabasse sob o ataque alemão em outubro de 1914, precipitadamente, um batalhão inteiro da Real Divisão Naval atravessasse a fronteira holandesa – em violação deliberada da neutralidade da Holanda – para escapar da captura pelo exército alemão.

De acordo com as leis de guerra internacionalmente reconhecidas, os holandeses detiveram os marinheiros britânicos até o final da guerra, o que, sem dúvida, para os ingleses, foi melhor do que ir para um campo de prisioneiro alemão.

Violações acidentais da neutralidade de uma nação são muito mais comuns. Na Segunda Guerra Mundial, cinco grandes países europeus – Irlanda, Portugal, Espanha, Suécia e Suíça – recusaram-se a se tornar beligerantes no conflito, ou pelo menos se recusaram a se tornar participantes ativos, pois o conflito tomou conta do resto do continente.

De todos os estados neutros, a Suíça se viu em maior risco por causa da longa fronteira que compartilhava com a Alemanha. À medida que os ataques aéreos aliados contra as cidades alemãs se intensificavam após 1942, as invasões ao espaço aéreo suíço também aumentavam. De 1940 a 1945, as Forças Aéreas do Exército dos EUA e a Real Força Aérea Britânica bombardearam à Suíça nada menos que 70 vezes.

As táticas usadas pelas formações de bombardeiros nas missões diurnas e noturnas durante a guerra aumentaram acentuadamente o risco de grandes danos ou perda de vidas, sempre que aeronaves britânicas ou americanas identificassem as cidades suíças como alemãs.

As formações exigiam voos a grandes altitudes, o que, particularmente à noite, contribuía de maneira compreensível para erros de navegação que levavam os bombardeiros, sem querer, a desviar-se do curso e entrar no território suíço.

A pior violação da neutralidade suíça, no entanto, ocorreu em plena luz do dia. Em 1º de abril de 1944, uma formação de quase 50 Libertadores B-24H jogou 60 toneladas de bombas na cidade suíça de Schaffhausen. Quarenta pessoas foram mortas, quase 300 ficaram feridas e a cidade foi severamente danificada. Os navegadores e bombardeiros haviam identificado Schaffhausen como a cidade alemã Ludwigshafen em Rhein, a cerca de 146 milhas ao norte.

Uma investigação determinou que o mau tempo, ventos fortes e a identificação incorreta de vários aspectos do terreno contribuíram para o erro dos bombardeiros. As Forças Aéreas do Exército dos EUA emitiram um pedido de desculpas oficial, entregue pessoalmente pelo General Carl Spaatz (que supostamente se irritou por se ele a apresentar as desculpas), e o governo dos EUA pagou mais de U$ 4 milhões em restituição pelo erro.

Aviões aliados bombardearam outras grandes cidades suíças, incluindo Genebra, Basileia e Stein em Rhein, durante a guerra. No entanto, o incidente mais notável ocorreu no dia 4 de março de 1945, quando uma formação de seis B-24H do 392nd Bomb Group, 8° Air Force, despejou 241 toneladas de cargas mistas, composta por bombas altamente explosivas e incendiárias, em Zurique. Cinco civis foram mortos.

Os danos no solo foram consideravelmente menores que os infligidos a Schaffhausen no ano anterior, mas o que tornou o caso de Zurique diferente de todos os outros foi o resultado legal.

Incêndios na cidade Suiça após ter sido, erradamente, bombardeada.

Após uma investigação inicial da 2ª Air Division dos EUA, dois oficiais americanos foram acusados ​​de violar o artigo 96 da guerra.

O Tenente William R. Sincock, piloto do bombardeiro lider da formação, foi acusado de ter, “erradamente e com negligência, lançado suas bombas em território amigo”. O navegador a bordo da aeronave de Sincock, Tenente Theodore Q. Balides, foi o principal responsável pelo erro de navegação, no qual Sincock havia se baseado para selecionar o alvo.

Sincock e Balides estavam com sérios problemas legais, mas pelo menos os oficiais que julgaram o caso haviam experimentado o caos e a carnificina da guerra aérea. O presidente da corte marcial não era outro senão James Stewart, o famoso ator. A nomeação de Stewart não teve nada a ver com sua celebridade.

Colonel James Stewart presidiu a corte marcial do caso do bombardeio de Zurique.

Em 1945, ele era um coronel na 8° Air Force e um experiente piloto de bombardeiros, com numerosas missões de combate sobre a Alemanha.

O caso contra os dois aviadores foi baseado na questão da negligência, ou seja, eles não haviam tomado todas as medidas razoáveis ​​para garantir que o alvo que eles identificaram fosse de fato alemão. A promotoria argumentou que a inexperiência não era uma defesa válida porque Sincock havia voado 22 missões de combate, 16 delas na posição de lider da formação.

O alvo correto do 392nd Bomb Group para a missão daquele dia era a cidade alemã de Aschaffenburg, a cerca de 280 quilômetros ao norte de Zurique. Por se tratar de um ataque à luz do dia, a altitude para o lançamento das bombas era de 20.000 pés. A aeronave de Sincock, como líder da formação, estava equipada com três sistemas eletrônicos de navegação: os sistemas de rádio catodo Gee e Gee-H, que podiam ser bloqueados pelos alemães, e o aparelho de radar H2X, conhecido como Mickey. Sincock aparentemente não tinha desculpa para voar tão longe do curso e lançar suas bombas na Suíça.

Tela do H2X, onde os pontos brancos são as possíveis cidades escaneadas pelo radar de bordo.

Como a defesa dos pilotos mostraram, no entanto, os sistemas da aeronave naquele dia começaram a falhar quase imediatamente após a decolagem. Os sistemas Gee e Gee-H nas aeronaves da Sincock estavam necessitando de uma maior dependência da identificação visual do solo em terra para se estimar a navegação.

Além disto, o mau tempo na área designada, onde os bombardeiros se reuniram para prosseguir para o alvo, forçou a formação a se dispersar, com cada grupo de aeronaves procurando alvos de oportunidade que pudessem aparecer em suas rotas de regresso.

O protocolo em tais situações era que qualquer bomba lançada sobre a Alemanha era uma bomba válida. Retornar à Inglaterra com as bombas não lançadas era considerado um fracasso total da missão.

Na corte marcial, Sincock prontamente se posicionou em sua própria defesa. Ele testemunhou que o caos nos céus acima da área de reunião significava que ele havia sido forçado a fazer uma série de curvas, tanto a esquerda quanto a direita, além de vários círculos completos.

Em todas estas manobras bruscas, ele perdeu o contato visual com o líder do grupo e as repetidas tentativas de chamá-lo no rádio, não receberam resposta.

Sem ajuda de equipamentos eletrônicos de navegação, Balides e os outros dois navegadores inexperientes a bordo das aeronaves de Sincock perceberam que seus esforços para manterem a rota correta em meio aos diversos desvios estavam se tornando infrutíferos.

Quando a pequena formação de aeronaves lideradas por Sincock finalmente se dispersou dos outros bombardeiros, o consenso dos navegadores era que eles estavam provavelmente a 64 quilômetros ao sul de Stuttgart. Eles, portanto, acreditavam que estavam perto da fronteira com a Suíça, mas ainda estavam seguros no lado alemão da linha, quando na verdade, eles já haviam desrespeitados a fronteira internacional.

Quando estavam olhando a tela do sistema Mickey, que raramente era funcional, apareceu uma cidade de tamanho considerável chegando em sua rota. Sincock e sua equipe tentaram identificá-la. Olhando as áreas urbanas ao longo da rota em seus mapas, a equipe achou que era provavelmente a cidade alemã de Freiburg.

Como piloto lider da pequena formação, Sincock pressionou seus navegadores para uma identificação mais definitiva desse alvo em potencial, embora o procedimento operacional padrão determinasse que qualquer coisa que desse retorno à tela do Mickey fosse um alvo de oportunidade, desde que fosse na Alemanha.

Os navegadores confirmaram que a cidade em que estavam se aproximando deveria ser Freiburg. O homem responsável pelo lançamento das bombas, só podia ver partes da cidade através da neblina, mas identificou várias características do terreno que combinavam com as de Freiburg, em particular um trecho triangular de floresta adjacente a um pátio de trilhos de trem.

O fogo antiaéreo começou a subir do solo, convencendo ainda mais as tripulações de que estavam em território hostil (mesmo que os suíços disparassem regularmente contra aeronaves aliadas que invadissem a fronteira).

Quando o bombardeiro apertou o botão para liberar as bombas, as tripulações acreditavam estar acima de uma cidade alemã.

Ten Sincock (segundo da esq para a dir, de pé) e Ten Balides (primeiro a esq de pé), assim como os demais tripulantes do B-24H.

Quando a corte marcial se reuniu em 1º de junho de 1945, a defesa reuniu um impressionante conjunto de testemunhas para falar sobre os desafios que haviam sido enfrentados por Sincock e Balides.

Os navegadores que precisavam contar com uma navegação estimada para seguir seu curso podiam lidar com uma curva ou duas, mas curvas repetidas para a esquerda e para a direita tornavam impossível a navegação precisa.

A defesa não contestou a acusação da promotoria de que Sincock liderou um atentado a bomba em Zurique, mas ofereceu razões convincentes pelas quais o tribunal deveria ver o incidente como um ato trágico, mas absolutamente não intencional.

Tendo cada um enfrentado os problemas operacionais que atormentavam Sincock e sua tripulação, os experientes pilotos de combate no juri precisaram de pouco convencimento.

Stewart manteve suas opiniões sobre o caso para si mesmo durante o julgamento, mas depois que Sincock e Balides foram absolvidos de todas as acusações por um veredicto unânime, ele disse estar satisfeito com o resultado.

O incidente do bombardeio de Zurique foi o único caso na Segunda Guerra Mundial em que soldados americanos foram formalmente processados ​​por um ato que envolvia violar a neutralidade de outro país.

A razão pela qual este caso foi levado à corte marcial, quando existiram outros mais graves, não foram revelados logo após o julgamento. Mais tarde, concluiu-se que o caso chegou onde chegou, para que o Departamento de Estado, em suas negociações com os suíços, pudesse citá-lo como prova do quão serio os Estados Unidos viram o incidente.

Em 1949, o governo dos EUA concordou em pagar U$ 14,4 milhões em reparações à Suíça por danos infligidos por operações militares americanas durante a guerra.

Um erro semelhante de bombardeio ocorreu durante a Guerra da Coréia, quando duas aeronaves americanas atacaram por engano um campo de aviação soviético dentro da fronteira da URSS. O governo dos EUA pediu desculpas formalmente pelo erro e levou a corte marcial os dois aviadores responsáveis ​​pelo ataque.

Ambos foram absolvidos, como Sincock e Balides, e exatamente pelo mesmo motivo: o erro da navegação foi considerado a causa, não a negligência criminal.

Há historiadores que acreditam que os bombardeios aliados ao território suíço às vezes eram deliberados e não acidentais. Há o caso de uma cidade alemã que demonstra que as tripulações aéreas costumavam estar mais inclinadas a ser cautelosas.

A cidade alemã de Konstanz está quase rodeada por território suíço. Durante toda a guerra, Konstanz deliberadamente deixava suas luzes acesas à noite, tornando-a indistinguível da cidade vizinha de Kreuzlingen, na Suíça. Os bombardeiros aliados sabiam que Konstanz estava lá, mas não conseguiam identificá-la com certeza suficiente para garantir que não bombardeariam Kreuzlingen por acidente.

Ao se esconder na neutralidade de seu vizinho, Konstanz, mesmo sendo um alvo legítimo das indústrias de guerra em seus arredores, nunca foi bombardeado e sobreviveu intacto à guerra.

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