Quando um civil esteve no meio dos combates aéreos na WW2

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Charles A. Lindbergh havia se tornado um herói nacional nos Estados Unidos após seu voo pioneiro para cruzar o Atlântico abordo do avião “Spirit of St. Louis”.

Mais tarde, seus pontos de vista isolacionistas antes da guerra, quando ele liderou a campanha “America First”, não foram bem vistos pela administração do presidente Roosevelt. Quando a guerra começou, ele estava determinado a servir seu país, mas encontrou seu caminho bloqueado pela Casa Branca.

Lindbergh encontrou uma maneira de contornar isso ao ingressar na empresa United Aircraft como consultor civil. Em 1944, ele estava no Pacífico, prestando aconselhamento em como obter o melhor desempenho do P-38 Lightning, e, assim, conseguiu voar 50 missões de combate, sendo a maior parte delas metralhando posições japonesas. Em 28 de julho, porém, ele foi além e abateu um avião japonês, um Mitsubishi Ki-51.

Um Mitsubishi Ki-51. Um modelo similar foi abatido por Lindbergh no dia 28 de julho.

Abaixo, segue um trecho deste combate escrito no seu livro “The Wartime Journals of Charles A. Lindbergh”.

“28 de julho

Nós alijamos nossos tanques extras, selecionamos as armas e nos concentramos no ataque. Um avião japonês se aproximava da pista de pouso e da área sob proteção das artilharias antiaéreas japonesa. Havia também um segundo avião japonês, que fugiu para as nuvens. O coronel MacDonald, líder da esquadrilha “Possum”, atirou no primeiro, que começou a soltar fumaça, fazendo com que ele reverte-se a curva.

Estávamos espaçados em 1.000 pés de distância. O capitão Danforth Miller atirava, mas sem danos perceptíveis. Comecei a disparar quando o avião japonês completou sua curva passando na minha frente. Vi as traçantes dos meus 20 mm indo diretamente na direção do alvo. Mas ele desviou e virou na minha direção.

Pressionei o gatilho de novo e mantive a mira no seu motor enquanto nos aproximávamos. Minhas traçantes raspavam sua aeronave. Estávamos perto, muito perto, e lutando um com o outro a mais de 800 km/h. Vamos bater? Me abaixei atrás dos controles. Seu avião curvou, repentinamente, para cima com extraordinária rapidez.

Afasto-me com toda a força que tenho. Seu avião parece enorme em tamanho. Um segundo passa, dois, três… Posso ver os detalhes dos cilindros do motor. Há uma sacudida no ar quando ele passa por trás de mim.

Meus olhos varriam o céu em busca de aeronaves. Existiam apenas os P-38 e o avião que acabei de abater. Ele estava caindo, girando e fora de controle. O avião girava levemente à medida que aumentava a velocidade em direção ao mar.

Agora só vejo uma espuma branca, com as ondas de água correndo para fora como uma pedra lançada em uma piscina. As ondas começam a se fundir com as do mar e a espuma desaparece. Tudo passa a ser como era antes.

Um Mitsubishi Ki-51, modelo similar ao que foi abatido por Lindbergh no dia 28 de julho.

Quanto perdemos? Dez pés? Provavelmente menos que isso. Não há tempo para pensar ou sentir medo. Estou subindo verticalmente. Curvo para a esquerda. Não! Isso me levará para o fogo da Flak acima de Amahai. Então inverti a curva para a direita. Tudo levou segundos.

Meu ala está comigo, mas me perdi do restante da minha esquadrilha voo. Existiam seis P-38 circulando a área onde o avião japonês caiu. Mas todos os seis aviões eram de outros esquadrões. Chamei ‘Possum 1’ no rádio que respondeu que estavam acima das nuvens. A camada de nuvens era fina, então subi me orientando pelos instrumentos do avião.

Não via ninguém ainda e, para piorar, perdi meu ala. Mergulhei de volta, mas todos os aviões abaixo também haviam desaparecido. A recepção do rádio era tão ruim que não consigui mais contato. Subi de volta às nuvens e segui para casa, contornando os topos e observando atentamente qualquer avião inimigo acima. Finalmente, consegui contato via rádio com a esquadrilha “Possum” e falei a eles que me juntaria no ponto de encontro original (as Ilhas Pisang).

Vi alguns bombardeiros lançando suas bombas quando vejo as ruas de Boela. Me virei nessa direção para ter uma visão melhor. As bombas começaram um grande incêndio na área do poço de petróleo de Boela, fazendo subir uma grande coluna de fumaça negra cada vez mais alto no ar. Os bombardeiros estavam fora de alcance, então a Flak concentrou seu fogo em mim. Nuvens negras de fumaça por toda parte, mas nenhuma perto, graças a Deus. Me distanciei e segui novamente para as Ilhas Pisang.

Lindbergh pilotou o P-38 Lightning durante o tempo em que voou no Pacífico.

Cheguei cerca de cinco minutos antes da minha esquadrilha. Nos reunimos e rumamos para a Ilha Biak. Aterrissei na pista de Mokmer às 15:55h.

O Tenente Miller, meu ala, relatou ter visto as traçantes do avião japonês indo na minha direção. Eu estava tão concentrado em meus próprios disparos que não vi os tiros das suas armas. Miller disse que o avião inimigo começou a girar fora de controle logo depois que, aparentemente, minhas balas atingiram seus controles ou mataram o piloto”.

Charles A. Lindbergh relatou toda a sua experiência no livro intitulado The Wartime Journals of Charles A. Lindbergh. O livro apresenta alguns eventos desde o tempo em que a Alemanha invadiu a Polônia até a visita de Lindbergh à Europa no pós-guerra, passando pelo tempo em que esteve no Pacífico.

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